5.11.06

Assim foi a 1ª aula de Visualisation Techniques & Technical Drawing...


"Não exagero ao dizer que os seguintes foram os piores anos galácticos que eu já tinha vivido. Continuava à procura, e no espaço adensavam-se os sinais, de todos os mundos quem quer que tivesse possibilidades já não deixava de fazer a sua marca no espaço de qualquer modo, e o nosso mundo também, sempre que me virava achava-o mais cheio, de modo que o mundo e o espaço pareciam um o espelho do outro, um e outro repletos de hierógliferos e ideogramas, e cada um deles poderia ser um sinal ou não: uma incrustação de calcário no basalto, uma crista erguida pelo vento nas areias amontoadas do deserto, (...) (pouco a pouco o viver entre sinais tinha levado a ver como sinais as inumeras coisas que dantes existiam sem assinalar mais nada senão a sua própria presença, transformando-as no sinal de si próprias e somadas à série de sinais feitos propositadamente por quem queria fazer um sinal, (...) a quantrocentésima-vigésima-sétima ranhura - um tanto de esguelha - da lápide do frontão de um mausoléu, uma sequência de estrias num vídeo durante uma tempestade magnética (a série de sinais de sinais, de sinais repetidos inúmeras vezes sempre iguais e sempre de qualquer modo diferentes porque ao sinal feito de propósito vinha juntar-se o sinal ali aparecido por acaso), a perna mal impressa da letra R que num exemplar de jornal calhara sobre uma escória filamentosa do papel, (...) uma travagem no asfalto, (...).

No universo já não havia um incluente e um incluído, mas apenas uma espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço, (...) o universo estava rabiscado por todos os lados, ao longo de todas as dimensões. Já não havia maneira de fixar um ponto de referência: a Galáxia continuava a dar voltas mas eu já não conseguia contá-las, qualquer ponto poderia ser o de partida, qualquer sinal em cima dos outros poderia ser o meu, mas descobrí-lo não serviria de nada, de tal modo era claro que independentemente dos sinais o espaço não existia e se calhar nunca tinha existido."

Italo Calvino, COSMICÓMICAS

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